Folclore

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Terra dos orixás, patuás e babalorixás; Terra de culto a Todos os Santos; a Bahia é também a Terra de todos os ritos e mitos. As diversas expressões folclóricas ostentam a riqueza do imaginário popular. Rodas de samba, Puxadas de Mastro, Capoeira, Terno de Reis, Bumba-meu-boi, Afoxé e tantas outras colorem, animam e exibem a fé inabalável do baiano por toda a capital e interior. Um mosaico de festejos e celebrações às crenças de origem africana, indígena e portuguesa, ao tempero singular da baianidade.

 

Afoxé

A capital da Bahia é, também, a capital do sincretismo religioso. Um verdadeiro caldeirão cultural, onde as diversidades convivem em perfeita harmonia. As 365 igrejas, para Todos os Santos católicos, somam-se à fé de origem africana, dos orixás, patuás e entidades sagradas do Candomblé.

Exemplo disso é o bloco carnavalesco dos Afoxés Filhos de Gandhy. Centenas de homens desfilam com indumentárias brancas de detalhes em azul dos pés à cabeça, incluindo um turbante com o símbolo do bloco, e colares de contas – ou guias – nas mesmas cores. O bloco, um dos mais tradicionais do carnaval, sai sempre aos domingos, segundas e terças, e arrasta multidões entoadas pelos cânticos africanos. A lista de associados inclui famosos como o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, e o cantor Caetano Veloso.

A palavra “afoxé” significa adivinhação, profecia ou predição do futuro. Esta manifestação folclórica se caracteriza, sobretudo, pela figura central do babalawô ou baba-oni-awô; o pai conhecedor do porvindouro. Originado nos terreiros de Candomblé, em especial os de “Efan”, nação dedicada ao culto de Oxum, o Afoxé ainda hoje simboliza os cultos a entidades nobres da cultura africana. Os cantos a Oxum e Oxalá, o “Ijexá”, ritmados com cabaça, agogô e atabaque, remontam aos entoados no terreiro por pais de santo, imbuídos de fé nos rituais religiosos.

Bacamarteiros

Em Ribeira do Pombal, no povoado de Boca da Mata, a comunidade se reúne nos meses de junho e dezembro para brincar de tomar fogueiras ou disputar o “tiro mais forte” nos terreiros das fazendas. Munidos de bacamartes de festim – os bacamartes são rifles artesanais do século XIX -, vaqueiros, camponeses, pequenos comerciantes, artesãos, mecânicos e artistas independentes, devidamente fardados com roupas de zuarte, cores vivas, chapéu de couro, alpercatas e cartucheiras de flandres, e sob a chefia de “oficiais” ostentando estrelas nos ombros e no chapéu e com bengalas ou guarda-chuvas como símbolo de comando, se divertem ao explorar os efeitos mágicos dos grandes estampidos, numa representação simbólica das antigas guerras sertanejas.

Os participantes são divididos em batalhões ou tropas, subordinadas a “sargentos” que, durante os festejos juninos e natalinos, deflagram grandes cargas de pólvora seca em homenagem aos santos padroeiros, acompanhados de bandas de pífanos ou zabumbas, danças típicas e rituais místicos de grande efeito pictórico.

Bailes Pastoris

Folguedo dramático popular originado do teatro religioso medieval, os bailes pastoris eram escritos por anônimos bi-letristas, em representação a autos sagrados, e encenados no adro e dentro dos templos católicos. Hoje, são representações familiares, de trama simples, mas ainda, em sua maioria, de resguardo das heranças religiosas. O enredo culmina na chegada de alguém trazendo a notícia do nascimento de Cristo, fazendo com que todo o elenco ponha de lado as suas divergências para, em convergência unânime, conclamar a platéia a fazer a peregrinação sagrada de respeito e adoração ao ilustre filho de Deus.

A dramatização se divide em dois cordões rivais de pastorinhas: azul e encarnado; cores votivas de Nossa Senhora e Jesus Cristo. Os grupos disputam fervorosamente a preferência do público, cabendo à moderadora Diana, metade azul e metade encarnado, apaziguá-los. As pastoras são moçoilas trajadas de branco, com uma fita longa do cordão a tiracolo (conforme a cor) e chapéu rústico de palha com abas largas enfeitadas por fitas. O cordão encarnado é chefiado pela mestra e, o azul, pela contra-mestra. Figuram, ainda, anjos e pastores, o velho (figura cômica), estrelas, as estações, as virtudes, as flores, a Terra, o Sol e a Lua, a noite e, em geral, gente humilde – peixeira, florista, camponesa, baiana, caçador, jardineiro…

As cantigas relacionadas exclusivamente com o motivo sacro do Nascimento de Jesus, loas e jornadas delicadas, suaves e de fundo sacro – introduzidas pelos jesuítas no século XVI – passaram a incluir, também, canções profanas, sem nenhum nexo com a representação, mas que fazem parte do imaginário popular local e continuam atraindo multidões com seus cânticos e danças.

Os bailes pastoris são destaque nas cidades de Prado, Canavieiras, Porto Seguro e Salvador, em especial no mês de dezembro, com a proximidade dos festejos natalinos.

Bando Anunciador (Pregão)

Em véspera de grandes festejos, as cidades do interior são envoltas pelo alvoroço comum que antecede às grandes comemorações. O bando anunciador é, talvez, um dos responsáveis pela agitação local. Vestidos em trajes esporte e tocando caixa, bombo, trombone e clarinete, dentre outros instrumentos de percussão e sopro, o grupo de homens tem a finalidade de anunciar a festa que se aproxima. Acompanhados da filarmônica local, distribuem a programação, sempre aos domingos, enquanto animam a cidade em uma espécie de romaria musical.

O chamado “Pregão” é tradição na cidade de Maragogipe, no mês de agosto, por ocasião da festa do padroeiro, São Bartolomeu. Em Cachoeira, a data é móvel entre outubro e novembro, por conta da festa de Nossa Senhora da Ajuda.

Banho da Paixão

Com a proximidade do feriado da Paixão de Cristo, na Sexta-Feira Santa, moradores de Olivença e Milagres, em Ilhéus, encenam rituais de proteção e fé, apoiados no poder sagrado das águas. Homens e mulheres, imbuídos de fé católica e fundamentados em mitos religiosos, se revezam, nos turnos matutino (mulher) e vespertino (homem), em mergulhos e nados nas praias das citadas localidades, fiados na crença de que mal algum se abaterá sobre eles durante o ano inteiro. A origem do costume é discutida, mas sabe-se que a popularidade dos banhos da paixão remonta ao lazer de tribos indígenas e povos africanos.

Bumba meu boi

A origem do auto do bumba-meu-boi remonta ao século XVIII, auge do ciclo de gado. Encenada em tons de sátira e de tragédia, a dança do boi e do homem simboliza o contraste entre a inteligência e a força bruta, com personagens alegóricos, enfeitados de adereços e em incidentes cômicos e dramáticos, mas de desfechos alegres. A dança é uma invocação crítica aos desníveis sócio-econômicos entre vaqueiro e patrão e tem influência das culturas indígena, africana e portuguesa.

A principal atração é mesmo o boi. Consiste em uma armação de madeira em forma de touro, coberta por veludo bordado e cuja armação é presa a uma saia de tecido colorido. É conduzido por uma pessoa, denominada de miolo do boi. O bailado, marcado por tambores, pandeiro, zabumba e maracás e entoado por cantigas, encanta também pela riqueza de cores e indumentárias.

Também chamado de Boi Janeiro, Boi Estrela do Mar, Dromedário e Mulinha-de-Ouro, a encenação conta uma estória que se passa em uma fazenda, no interior do país. Um negro vaqueiro, sua mulher cabocla e um homem branco, dono da fazenda e, portanto, do estimado boi de raça, são as personagens fixas, acompanhadas, normalmente, pelo Virgulino, o Caipora, o Gigante, o Capataz, o Caboclo Real, o Capitão, o Caçador e o Padre. O Negro Chico, desesperado porque sua esposa grávida sente desejo de comer a língua do estimado boi, resolve roubar o animal. Em uma das versões, o Pai Chico é capturado com o boi adoecido que, após ser curado pelo pajé, revive e começa a dançar. Tudo termina em festa e o vaqueiro é perdoado. Na outra versão, o boi morre e seu corpo é partilhado.

Tradição no interior do estado, a Festa do Bumba-meu-boi preenche os festejos natalinos e, em menor incidência, o Carnaval e outras festas locais, com duração de cerca de três dias. Cachoeira, Camamu, Canavieiras, Conde, Cruz das Almas, Ibotirama, Juazeiro, Inhambupe, Jequié, Monte Santo, Santo Antônio de Jesus, São Félix, Prado, Jiquiriçá, Itacaré, Nova Viçosa e Porto Seguro mantém viva a herança secular de louvação ao boi.

Burrinha

Folguedo popular comum em alguns grupos de Bumba-meu-boi, a burrinha é, na verdade, um cavalinho ou burro pequeno em estrutura de madeira e com um furo central por onde entra o seu condutor. O chamado brincante veste a burrinha, que fica dependurada sobre seus ombros por tiras no estilo de um suspensório, como se fosse um balaio na cintura. Com vestimentas coloridas e de estampas fortes, o homem mascarado dança como se estivesse a cavalgar a burrinha, sempre acompanhado de violão, ganzá e pandeiro. A cabeça do animal é estilizada em folhas de flandres. A folia marca as comemorações do Dia de Reis, no 06 de janeiro. Muito comum nas cidades de Cruz das Almas, Itaparica, Maragogipe, Prado e Jiquiriçá.

Cabeçorras

Na cidade de Belmonte, os festejos carnavalescos guardam uma peculiaridade; as chamadas cabeçorras. Trata-se de foliões que saem às ruas durante o dia, trajando máscaras coloridas e empunhando um chicote. A novidade chama a atenção da criançada, que costuma sair atrás do mascarado aos gritos de “cabeçorra, ladrão de ovo!” e expressões do tipo. O folião se faz de desentendido até juntar o máximo de crianças em sua perseguição. É aí que ele vira-se para a molecada e fingi perseguí-las para chicoteá-las, causando grande alarido e animação. De fato, as Cabeçorras são uma grande brincadeira, remontando aos carnavais do passado, onde as populares “caretas” eram a grande atração.

Caboclinhos

Trajados ao melhor estilo indígena, com direito a arco e flecha, o grupo entoa coreografias ritmadas ao som de flautas e pífanos, remontando aos combates entre tribos rivais. O bailado primário não tem enredo ou fio temático, mas segue as pancadas das flechas nos arcos, simulando ataques e defesas, endossados por saltos e troca-pés.

Caboclinhos é uma representação das danças indígenas, comum nos festejos militares e religiosos. As datas variam de acordo com a localidade, assim como os nomes dos figurantes – cacique, caboclo velho, pantaleão, mestre e contramestre. Em Itaparica, a festa é no dia 07 de janeiro, em celebração à Independência local. Em Mucuri, ocorre em 19 de março, na Festa de São José. Nas cidades de Itacaré, Camamu e Nazaré, os Caboclinhos se apresentam no dia 02 de julho, Independência da Bahia.

Chegança (Marujada)

Esse bailado popular antigo, de origem portuguesa e que representa a luta entre mouros e cristãos, dramatiza as lutas lusitanas e as conquistas marítimas. Trajados de marinheiros e empunhando armas, o bailado simboliza a derrocada do Islamismo frente à superioridade do Catolicismo. Ao final da batalha, os mouros – derrotados – são convertidos e batizados.

Também conhecida como Barquinha ou Nau Catarineta, a Chegança marca os festejos dos santos padroeiros locais com desfiles do porto até a igreja, entoados pela bandinha devidamente fardada de marujo. As comemorações variam de acordo com a localidade. Em Jacobina, a data é móvel, quando da Festa de São Benedito, em seqüência às celebrações do Divino Espírito Santo. Em Alcobaça, ocorre no dia 20 de janeiro, também na Festa de São Benedito. Em Prado, na segunda-feira após a Semana Santa, igualmente durante as comemorações de São Benedito. Em Mucuri, no dia 19 de março, na festa de São José.

Congos (Congada)

Mescla de herança africana com toques da cultura portuguesa, a “Congada” representa a coroação dos reis congos, que desfilam mascarados e trajados com fardas ornamentadas de ouro e diamantes, cercados do bailado dos guerreiros. Sua origem remonta ao ano de 1482, em um dos Impérios negros mais importantes de todos os tempos: o Congo. Apesar de imponente, ruiu frente ao poderio das esquadras portuguesas em guerra pelo território, restando ao povo negro, aguerrido de força e fé, o título de Rei de Congo como homenagem em memória à dura batalha.

No Brasil, está presente desde os tempos de colônia, quando os desfiles de congos eram atração principal nas festas organizadas pelas irmandades de escravos, por ocasião da coroação simbólica de Reis e Rainhas africanos ou afro-descendentes. Além da reminiscência de rituais africanos, a manifestação folclórica somou-se aos costumes das Congadas lusitanas, que ilustravam as comemorações de Nossa Senhora do Porto. A primeira apresentação oficial em terras baianas data de 6 de junho de 1760, no Paço do Conselho da cidade de Salvador, em festejo ao casamento da princesa real, D. Maria I, com D. Pedro III. A tradição segue com força e respaldo em Juazeiro, com adaptações que o afastam do formato tradicional, entoando cânticos em louvor à Virgem do Rosário durante as suas comemorações, no último domingo do mês de outubro.

Lamentação das Almas

Manifestação no mínimo curiosa, a Lamentação das Almas é uma espécie de penitência que se apresenta nas igrejas e cemitérios, durante a Quaresma, nos municípios da Chapada Diamantina, em especial Lençóis, Andaraí e Mucugê, e com maior intensidade durante a Semana Santa. Um grupo de mulheres e homens saem às ruas da cidade, envoltos em lençóis brancos e, entoados ao som da matraca, cantam benditos e fazem paradas obrigatórias em frente às igrejas, capelas, cruzeiros e cemitérios.

Lindro Amor

Lindro Amor é um peditório que se faz em benefício das festas de Nossa Senhora da Purificação ou São Cosme e Damião. O cortejo, formado por mulheres, homens e crianças, sai em visitação às casas, rogando saúde e prosperidade para os seus donos, professando a esperança de dias melhores e levando algo que simbolize a devoção. As mulheres vão sempre no meio, vestindo saias de roda estampadas e chapéus de palha, enfeitados com tiras coloridas. Elas dançam e cantam, enquanto os homens seguem atrás, com calças brancas, batucando o pandeiro, tocando a viola ou a sanfona. Na frente, as crianças animam o saimento, carregando uma caixa vazia com a imagem dos santos e onde serão depositadas as moedas para o preparo do caruru, a ser realizado a partir dos próximos sábados até findar o mês de outubro.

A tradição tem suas origens nos tempos da escravidão, quando os senhores de engenho permitiam que os escravos festejassem. Com o passar do tempo, o Lindro Amor – originário da expressão colonial portuguesa “Lindo Amor” – passou a ter conotações religiosas associadas às procissões e petitórios, que antecedem os carurus oferecidos aos santos e orixás irmãos. No caso de Nossa Senhora da Purificação, leva-se uma coroa em uma bandeja florida, junto à bandeira, enquanto os participantes entoam cânticos acompanhados do pandeiro e tambor.

Os santos são exibidos em pequenos altares, decorados com papel crepom colorido e flores. A doação é voluntária. Ao fim da primeira procissão, as imagens sacras ficam na casa de um morador antigo e querido da comunidade, e segue se revezando, de casa em casa, a cada nova vez. Conde, Candeias, Santo Amaro, São Francisco do Conde e São Sebastião do Passe são as principais localidades onde a manifestação se faz presente.

Maculelê

Ponto alto dos folguedos populares nas celebrações profanas, em comemoração ao dia de Nossa Senhora da Purificação (2 de fevereiro), padroeira de Santo Amaro, o Maculelê é uma dança de forte expressão dramática, destinada a participantes do sexo masculino, que bailam em grupo, batendo as grimas (bastões) ao ritmo dos atabaques e ao som de cânticos em dialetos africanos ou em linguagem popular.

Esta “dança de porrete” tem origem Afro-indígena – trazida pelos escravos e mesclada com traços marcantes da cultura indígena -, saída dos canaviais diretamente para a cidade. Homens ágeis e fortes, munidos de bastões de madeira de lei com cerca de 60 a 70cm e dividido aos pares, bailam, batendo os porretes uns contra os outros ao final de cada frase entoada pelo coro. O chefe do grupo, munido de um bastão maior, dá início à coreografia, batendo nas batutas dos demais participantes, que prontamente se defendem, formando um “X” ao encontro dos dois pedaços de madeira. Alguns grupos fazem uso de facões e tochas de fogo ou “tições”, retirados na hora de uma fogueira que fica no meio da roda, junto aos dançarinos.

A data de apresentação varia, mas as exibições sempre acontecem durante a festa de Nossa Senhora da Purificação e no Bembé do Mercado, realizado em maio, nos festejos pela Abolição da Escravatura. Tradição mantida há mais de cem anos na cidade de Santo Amaro da Purificação, Recôncavo baiano.

Mandus

Com uma peneira sobre a cabeça e um cabo de vassoura coberto por lençol branco atravessado nas costas, o grupo de foliões percorre as ruas de Belmonte, durante as celebrações carnavalescas, provocando enorme alvoroço, especialmente sobre a criançada, assustada com o aspecto fantasmagórico dos fanfarrões. A indumentária alarga os ombros por conta da vassoura e, graças ao lençol colocado por cima e cobrindo os rostos, transforma os fantasiados em verdadeiras assombrações, que saem às ruas brincando com os passantes e animando o Carnaval.

Puxada de Mastro

Tradicional cerimônia em louvação a São Sebastião, a Puxada de Mastro reúne caboclos, negros e brancos ao redor de um grande tronco de madeira, erguido em frente à igreja. Um grupo de homens parte para a floresta Atlântica logo cedo, às 6 da manhã, derruba uma grande árvore, arrasta o tronco até a praça da cidade, transforma-o em mastro e finca, no seu topo, o estandarte de São Sebastião para, então, erguê-lo diante da igreja, em plena praça municipal.

Evento importante no calendário da Estância Hidromineral de Olivença, em Ilhéus, a Puxada de Mastro em homenagem a São Sebastião tem início com a Bandeira do Espírito Santo, que todo ano recolhe donativos para efemérides. Reza a crença que grandes calamidades e tragédias se abaterão se o povo não substituir o mastro à entrada da Igreja de Nossa Senhora da Escada.

Espécie de penitência em que se clama, aos santos, proteção contra todos os males que afligem a humanidade, a Puxada de Mastro remonta ao período colonial, como resultado da cristianização de um ritual indígena. Os nativos das diversas tribos encenavam jogos, cerimônias e ritos com toras de madeira, até que os jesuítas, para atrair novos adeptos à religião Cristã, transformaram a antiga tradição na festa do mastro com a bandeira de São Sebastião, em especial na região sul e extremo sul da Bahia.

Principal manifestação folclórica da região, a festa atrai grande número de seguidores ao som entoado por tambores, flauta e cantigas indígenas. Em Ilhéus, os festejos ao santo padroeiro ocorrem sempre no segundo domingo de janeiro. Celebrado também em Prado, no dia 20 de janeiro; em Trancoso, com festejo duplo dias 19 e 20 do citado mês; e em Alcobaça, com direito a uma semana de louvação, de 31 de dezembro a 6 de janeiro.

Terno de Reis

Com indumentárias vistosas, ornamentadas com areia brilhante, miçangas e diversos detalhes, os foliões de Reis encenam atos e entoam cantorias em louvação à divindade de Cristo, quando agraciado e adorado pelos Três Reis Magos, sob a guia da Estrela de Belém.

Celebrado tanto nos festejos natalinos quanto no dia de Reis, em 6 de janeiro, o Terno percorre as ruas durante a noite, visitando as casas ao som de viola, caixa e pandeiro, pregando tempos de fé e candura. Tradição seguida à risca nas cidades de Alcobaça, Barreiras, Conde, Jacobina, Lençóis, Morro do Chapéu, Mucuri, Palmeiras, Porto Seguro, São Félix, Santo Antônio de Jesus e Vitória da Conquista.

Trança Fitas

Tradição na cidade de Cachoeira, Trança Fitas é uma dança sincronizada de meninas em volta de um mastro todo enfeitado por fitas coloridas. Umas das meninas é a eleita para carregar o estandarte com a inscrição “trança fitas”, enquanto as demais bailam em círculo, ao redor do mastro, onde estão presas as extremidades de 12 fitas de cores diferentes.

Cada ponta é segura por uma moçoila, que dança ao seu redor, trançando-se com as outras fitas em uma coreografia marcada por tocadores de caixa, saxofone, trompete e trombone. Metade circula em um sentido e a outra metade segue n’outro, enquanto as fitas vão-se entrelaçando até o meio do mastro, quando, então, recomeçam a executar o movimento no sentido inverso. O Trança Fitas (ou pau-de-fitas) possui similares nas cidades de Rio de Contas e Andaraí, na Chapada Diamantina.

Zambiapunga

Herança africana, o Zambiapunga é um cortejo de homens mascarados, trajados com roupas coloridas e feitas com panos e papeis de seda, que saem às ruas durante a madrugada, dançando e acordando a cidade ao som ecoante de enxadas, tambores, cuícas e búzios gigantes, usados como instrumento de percussão.

Zambiapunga vem de Zamiapombo, Deus supremo do Candomblé. Inicialmente uma cerimônia para afugentar os maus espíritos com utilização de máscaras, a manifestação chegou ao estado através dos negros bantos, escravizados na região do Congo-Angola e trazidos para cá para trabalhar no plantio dos canaviais do Recôncavo e de grandes extensões de dendezeiros no litoral do Baixo-Sul. Não à toa, a região concentra forte expressão do costume folclórico, em especial nas cidades de Nilo Peçanha, Valença, Taperoá e Cairu. Em Nilo Peçanha, onde a tradição é mais forte, a festa acontece, tradicionalmente, na madrugada de 1º de novembro, dia de Todos os Santos e véspera de Finados.

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